Juliana Corrêa - Se eu quiser falar com Deus

A ausência de meu avô não leva de nós seu legado. Herança essa que ultrapassa as barreiras materiais e entra no campo do conhecimento e da curiosidade. A morte não cala o conhecimento, não cala a ética, não cala a história de uma vida inteira dedicada à informação correta, fosse ela originada de qualquer lugar.

Começo agradecendo imensamente às pessoas que cuidaram de meu avô nos últimos e mais difíceis anos de vida: Dona Rosa, sua fiel secretária, amiga e confidente; Patrício, seu enfermeiro fiel e o mais humano que Deus podia colocar em nosso caminho e Ruth, nossa secretária do lar que todo santo dia cuidava para que tudo acontecesse de maneira a não desregular a rotina da casa.

Ao Dr. Cláudio Leão, que por inúmeras vezes se dedicou aos cuidados com meu avô, ouvindo suas histórias e articulando para que tudo saísse da melhor maneira possível durante suas inúmeras internações e tratamentos intensivos. A seus grandes amigos, de longas datas, Elson Martins, Phelippe Daou, João Silva, Paulo Silva, João Capiberibe, Júlia Alcolumbre, Tabosa, Ana e Sandro Gallazzi, entre tantos outros que ora brigavam, se desentendiam, mas conseguiam perceber que o valor do projeto de vida que eles escolheram todos juntos era maior do que os perrengues do dia-a-dia.

Agradecer imensamente à nova safra de políticos que permitiram que ele morresse com esperança renovada de que daqui pra frente nós faremos o mundo mudar. E também agradecer aos maus políticos, pois graças a vocês, ele conseguiu realizar seu objetivo de vida, que era combater a má política. Entendam que sua ira não era contra as pessoas, e sim contra as condutas erradas.

Nosso muito obrigado a todas as pessoas que debatiam os mais diversos assuntos com ele, via internet. Vocês foram o combustível da vida dele após a doença que limitava sua vida social. Concordando ou discordando das suas convicções, vocês alimentavam sua existência mais do que qualquer nutriente palpável.

Meu avô pode se tornar o homem espetacular que foi, graças a tantos sofrimentos por ele vividos ao longo de seus 74 anos. Em Belém do Pará, ficou órfão de mãe aos sete anos de idade e precisou sofrer alguns maus tratos nas mãos de madrastas até que, aos 16 anos, fugiu de casa para nunca mais voltar.

Ingressou na Marinha, através da qual foi campeão carioca de tênis de mesa e se orgulhava muito de contar que, graças a este título, ele era o único marinheiro fardado que podia entrar no Clube Náutico do Rio de Janeiro para dar aulas de ping-pong. Jogou na equipe sub-21 do Vasco da Gama, seu time do coração até o fim da vida.

Decidiu ser Jornalista por não aceitar passar por esta vida em vão. Voltou ao Pará, desta vez em Bragança, onde conheceu sua esposa Vera. Já ativista na oposição de tudo o que achava incorreto, fugia constantemente da Ditadura Militar e por isso casou-se via procuração. Juntos, foram para Manaus, onde viveu as maiores aventuras que um jornalista pode viver. Dentre elas: voar em um avião Catalina com 16 parafusos a menos na asa para cobrir um grande acidente aéreo no meio da selva. Dentre elas também, fugir dentro de um cesto, no lombo de um burro, floresta adentro, para não ser assassinado pelos soldados da ditadura.

Passou dificuldades no Amazonas, tudo para fazer o que mais amava: comunicar. Veio para o Amapá com sua esposa e os dois primeiros filhos em busca de dias melhores, onde seu pai já estava vivendo. Aqui fez a maior parte de sua história e o restante de sua família. Combateu o governo do antigo Território, foi preso, sofreu tentativa de atropelamento, de suborno e muitos assédios morais, mas nunca calou para absolutamente ninguém.

Discordou de amigos, pediu desculpa a alguns desafetos. Sempre abriu espaço para todo tipo de opinião. Respirava opiniões. Chegava a dizer que era preciso provocá-las para que as pessoas saíssem da zona de conforto.

Vivia dizendo que não queria virar nome de rua, porque isso é inútil. Queria inspirar as pessoas a serem melhores e se quisessem homenageá-lo, que plantassem muitas flores para atrair bem-te-vis e beija-flores, pois ele os adorava.

Pulou as fogueiras dos maus tratos, solidão, fome, tuberculose, diabetes, complicações pulmonares, amputação de uma perna, escreveu até os 74 anos com o auxílio de uma lupa e no fim calou-se… Partiu nos braços de um anjo que Deus colocou em sua vida pra trazer carinho até o último momento, sua namorada Rechene. Não calou, porque tinha muitas perguntas a fazer para Deus.

Juliana Corrêa

8 comentários sobre “Juliana Corrêa - Se eu quiser falar com Deus”

  1. Nazare Tillar (Tia Nazeca) diz:

    Ju querida, tenho passado maus pedacos por causa da tua prima Cindy, quase nem tive a change de chorar a morte do meu irmao, mas de onde ele estiver ele sabe o que estamos passando, deixa eu te contar uma concidencia: Quando a Cindy nasceu (17-9-1984), teu avoh estava no Hospital tendo uma cirurgia, tua mae deve lembrar disso e agora no dia que ele morreu quem estava tendo uma cirugia era ela, nao sei como explicar isto. Olha estou direto no Hospital com ela, mas sempre pego um telefone p/ir no FB e claro leio quase tudo que vem de voces, principalmente o que escreves, tudo eh lindo emocionante e verdadeiro, que bom filha que teu avo teve umas netas como voces.Estou te escrevendo de casa pois vim aqui resolver uns assuntos.
    Beijos p/todos e desejo conforto a todos voces e a nos tambem. Com carinho, Tia Nazeca

  2. Maracimoni Oliveira diz:

    Juliana,

    Lindo, comovente e profundo texto. Você herdou a sensibilidade da escrita do seu avô e de sua mãe. As suas palavras brotam amor e a mesma sagacidade do nosso querido Corrêa cujo legado está vivo nas sementes que ele plantou como um verdadeiro mestre. O Corrêa dever estar muito orgulhoso de você. Não poderia ser uma homenagem mais bonita: a sua e de sua irmã Janaína. Ele agora é a vossa estrela, o vosso anjo…

    Com todo o profundo carinho e amizade que eu sempre tive pelo seu avô, um mestre para mim…

    Maracimoni Oliveira

  3. Patrícia Côrte diz:

    Toda vez que eu escutar essa música vou lembrar do “seu corrêa”…. e como adora bem-te-vis.

    Bem te vi, bem te vi
    Andar por um jardim em flor
    Chamando os bichos de amor
    Tua boca pingava mel
    Bem te quis, bem te quis
    E ainda quero muito mais
    Maior que a imensidão da paz
    Bem maior que o sol
    Onde estás?
    Voei por este céu azul
    Andei estradas do além
    Onde estará meu bem
    Onde estás?
    Nas nuvens ou na insensatez
    Me beije só mais uma vez
    Depois volte prá lá.

  4. José Castelo diz:

    Em um momento de imensa tristeza, acho que a melhor forma de homenagear Correa Neto, é fazer silêncio em sinal de respeito, para que possamos ouvir ecoar lá do céu o coro dos anjos saudando o grande homem que foi. Posso dizer que fui um privilegiado, pois convivi com o Correa Neto à época do Jornal Folha do Amapá, quando fui revisor. Descanse em paz Corrêa Neto.

  5. Hellen diz:

    Me emocionei diversas vezes enquanto li seu depoimento.É lindo como alocaste cada palavra num lugar especial do texto e de como transmitiu seus sentimentos. Seu avô partiu e isso aguça nosso egoismo que não queremos deixar quem amamos. Mas vi em um filme uma vez: a morte faz parte da vida. Nosso egoismo tem q ir saindo sorrateiro e a saudade nos serve de acalanto. Meus sentimentos Ju!

  6. Marcos Quadros diz:

    Um exemplo de vida. Deixou saudades.

  7. Rita Torrinha diz:

    Juliana, que lindo seu depoimento. Vejo que tens muito do teu avó. Simplesmente emocionante, nada mais a dizer. Um beijo e que Deus conforte sua família.

    Rita Torrinha

  8. carlos augusto calixto dos santos diz:

    Boa tarde,

    Parabens pela mensagem,vc relatou tudo e até mto mais em poucas linhas, hj estou morando em Natal e por meio do blog do Correa sempre tenho me mantido bem informado das noticias de Macapá, enviei diversos email ao blog e sempre recebi suas respostas ” Amigo Tenha Esperança em um Brasil Melhor”.

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